Layane Cristina Dias Fonseca, egressa do Pré-Vestibular da Biko das turmas de 2009 e 2010 e ex-estagiária da instituição, conta que sempre sonhou em fazer várias tatuagens, mas que a primeira teve um significado muito especial. Em 2018, ela decidiu tatuar a logo da Biko como forma de homenagear a organização que transformou sua vida e sua maneira de compreender a sociedade. Para Layane, gravar a marca da Biko na pele foi também uma forma de expressar sua gratidão por tudo o que vivenciou na instituição.
Ela nos conta que o tatuador Baga Traços de Rua (@tracosderua) foi o responsável pelo brilhante trabalho. Antes de iniciar a tatuagem em sua perna, conversou com Layane, ouviu suas expectativas e a orientou durante todo o processo. Emocionada, ela afirma que essa marca permanecerá em seu corpo para sempre:
“Foi na Biko que passei a me reconhecer como mulher negra e a compreender melhor as nuances que o racismo produz na sociedade, assim como as diferentes dimensões que atravessam a minha vida, especialmente em relação às interseccionalidades. Eu estava com um pouco de medo, afinal, era a minha primeira tatuagem. Mas a dor foi suportável. Foram aproximadamente três ou quatro horas para concluir o trabalho e, apesar disso, foi uma experiência muito gratificante.”
Hoje com nove tatuagens, Layane, assessora parlamentar, carrega na pele do seu corpo, a gratidão após ter sua vida transformada. A logomarca da Biko reúne símbolos que expressam valores ancestrais, memória afrodiaspórica e cosmovisões africanas e afro-brasileiras. Composta por um conjunto de elementos que carrega um significado próprio, a logo, criada na década de 1990, passou por alguns ajustes em seu design ao longo dos anos e permanece representando a missão institucional comprometida em:
“Promover a ascensão político-social da população negra por meio da educação e valorização da sua ancestralidade.”
Talvez você nunca tenha parado para refletir sobre a logo em sua completude. Reunimos, neste texto, alguns de seus elementos para fomentar uma reflexão a partir de uma perspectiva afrocentrada. Essa identidade visual, presente na capa do módulo, nas camisas, nos murais da sede, nos perfis das redes sociais e em tantas outras formas de expressão, nos conduz a uma memória afetiva, rememorando experiências, encontros, aprendizados e vínculos construídos ao longo da trajetória do Instituto Steve Biko.
Layane Dias
Destacamos cinco elementos que julgamos cruciais nesta análise:
1. As cores pan-africanistas: Nesse sentido, o Pan-africanismo pode ser compreendido como um movimento de unidade, identidade, emancipação e valorização dos povos africanos e da diáspora. Embora diferentes tradições pan-africanistas tenham utilizado combinações distintas, com destaque para o vermelho, o preto e o verde, e também para o amarelo, essas cores remetem à unidade, à resistência e à valorização dos povos africanos e afro-diaspóricos. Mais do que uma escolha estética, expressam pertencimento e afirmação da negritude, alinhando-se à missão do Instituto Steve Biko de promover, por meio da educação, a consciência racial e o enfrentamento às estruturas do racismo.
2. A circularidade: materializada no formato circular da logomarca, remete à ancestralidade e à circularidade como importantes valores civilizatórios afro-brasileiros, associado ao movimento e à continuidade. O círculo não estabelece um ponto único de partida ou de chegada. Sugere um movimento contínuo no qual passado, presente e futuro permanecem relacionados. Na perspectiva da ancestralidade, aquilo que veio antes não está dissociado do presente, mas o alimenta e orienta a construção do futuro. Assim, a circularidade presente na logomarca pode ser compreendida como expressão de uma concepção de tempo e existência que valorizam a ancestralidade e a continuidade das acões institucionais.
3. Os dois perfis: dispostos em lados opostos e inspirados no Adinkra Sankofa, remetem às ideias de passado, presente e futuro. Centralizados na identidade visual, os dois perfis estão orientados em direções distintas e podem ser compreendidos a partir do princípio de Sankofa: olhar para o passado, recuperar conhecimentos e experiências ancestrais e, a partir deles, construir o futuro. A memória, portanto, não é compreendida como um retorno ao passado, mas como fundamento para avançar, reafirmando a importância da ancestralidade na construção de novos caminhos.
4. O baobá: no centro da identidade visual, os dois perfis também assumem uma representação gráfica que evoca o baobá, árvore de forte presença simbólica em diferentes culturas africanas. Na logomarca, o baobá adquire uma dimensão sagrada, remetendo à relação entre comunidade, território, ancestralidade e espiritualidade. Associado a raízes profundas, longevidade, proteção e conexão entre gerações, o baobá simboliza a força daquilo que se sustenta na ancestralidade e permanece vivo ao longo do tempo. A Biko, assim como o baobá, pode ser compreendida como uma árvore frondosa, com raízes fincadas em terras férteis, que se fortalece ao longo do tempo e produz muitos frutos, representados pelas vidas transformadas pela educação e pela consciência racial.
5. O afrofuturismo: por fim, e não menos importante, as bordas verde e vermelha sugerem movimento e pertencimento, estabelecendo também uma conexão com o afrofuturismo. A partir dessa dimensão, a identidade visual da Biko pode ser compreendida não apenas como expressão da memória e da ancestralidade, mas também como convite à imaginação e à construção de outros futuros. O afrofuturismo amplia, assim, a leitura da logomarca para além da memória: se a ancestralidade oferece raízes, o afrofuturismo possibilita imaginar e construir futuros nos quais pessoas negras ocupem o centro da produção de conhecimento, da tecnologia, da cultura e da transformação social.
Assim, a logomarca da Biko pode ser lida como: as cores afirmam a identidade e o pertencimento; a circularidade expressa movimento e continuidade; os dois perfis evocam o princípio de Sankofa; o baobá representa o sagrado, a ancestralidade e a força das raízes; e o afrofuturismo projeta a possibilidade de novos futuros.
Carregada de emoções e significados, a logomarca constitui uma identidade visual que não apenas representa a Biko, mas comunica uma concepção de mundo e de pertencimento. A partir dela, podemos reconhecer de onde viemos, compreender o lugar que ocupamos no presente, transformar a realidade e construir futuros nos quais a equidade racial e a presença negra sejam princípios fundamentais.
Este conteúdo integra a série "Memórias da Biko: 35 fatos sobre a Biko", escrita por George Oliveira.
George Oliveira
Ativista do Movimento Negro, economista, mestre em Gestão Social e doutorando em Educação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atuou por mais de duas décadas no Instituto Steve Biko, onde exerceu a função de coordenador financeiro e gestor administrativo. É pesquisador das relações raciais, educação e equidade racial, além de escritor e palestrante antirracista.