Há 10 anos o Instituto Steve Biko realiza a Trilha Ancestral, projeto transversal que reúne o ensino das Ciências Humanas e da Natureza à vivência prática dos estudantes no Parque São Bartolomeu, espaço de Mata Atlântica sagrado às religiões de matriz africana em Salvador. Mais de 100 pessoas acompanharam a Trilha entre cachoeiras, riachos, árvores e pedras do bioma original.
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Iniciando com homenagens e diálogo com estudantes e participantes, a Trilha começou com alongamentos e participação do Movimento Erê na Praça, que acompanhou a caminhada na percussão. A cada cachoeira – Oxum, Oxumarê e de Nanã -, professores explanavam sobre clima, vegetação, fauna e as relações humanas ligadas à preservação do Parque, especialmente temas como Racismo Ambiental.

Professor de Geografia na Biko há mais de 12 anos, Jefferson Bispo dos Santos falou da importância de pensar aquele espaço como resistência. “Primeiramente é pensar nesse espaço como um local de resistência. Celebrar esta trajetória de uma década é fundamental para conferir significado ao nosso território. Ao refletirmos sobre o centenário de Milton Santos, compreendemos a importância deste espaço não apenas no contexto educacional, mas como um símbolo de resistência. A Biko transcende o ensino; é um lugar de memória, de identidade e de afirmação constante da nossa potência coletiva", disse Jeferson.

Herança e energias africanas que pulsam ali, mas também um lugar que reflete no caminhar a estrutura do racismo por seu estado de conservação e preservação, o Parque São Bartolomeu continua sendo um local para aprender sobre as ciências e sobre a vida. “Com essa beleza do Parque, vamos também aprender um pouco mais sobre conteúdos que podem estar no ENEM, relacionados às áreas de conhecimento. Há 10 anos, um projeto que leva estudantes para fora da sala de aula para que eles se integrem ao espaço no aprendizado de conteúdos voltados ao ENEM, com foco especial em Ciências da Natureza”, afirma Jucy Silva, diretora de Comunicação do Instituto.
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Para muitos estudantes da Biko presentes na Trilha, essa foi a primeira vez no Parque. Como para Jonathan Oliveira, de 22 anos. “Essa foi minha primeira vez no Parque São Bartolomeu vivenciando a Trilha Ancestral, e para mim foi algo muito cativante, porque é uma primeira experiência. Então foi muito interessante para mim conhecer ali as cachoeiras, as caídas. Encontrei uma aranha também maravilhosa, sou apaixonado por aranhas. Então para mim foi uma experiência incrível ver aquela aranha pessoalmente que eu só tinha visto por vídeos e por fotos. Conheci a Cachoeira de Oxum, a Pedra de Omolu, a cachoeira de Nanã também, a Pedra de Iansã. Então para mim foi uma experiência maravilhosa, recomendo bastante”, disse Jonathan.

Já fazendo a Trilha pela segunda vez, a estudante Marília Santana, de 20 anos, relatou sua experiência. “Uma experiência incrível porque mesmo que não seja a primeira vez, cada dia que a gente vai, cada Trilha que a gente participa, é uma perspectiva nova, uma nova experiência, é um novo aprendizado, a forma como a gente observa é totalmente diferente. A gente vai com outro olhar, então assim, cada aprendizado que a gente faz aqui é muito gratificante e você sente a necessidade, você sente a vontade de voltar. Então é algo muito bom, você aprende muito, é algo muito bacana, que traz saúde e também mais educação.
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Um dos idealizadores da Trilha Ancestral, há 10 anos, e professor na Biko há 21, Carlos Cruz falou do resgate da história e significado deste território que é o Parque São Bartolomeu:
“Quando pensamos nessa Trilha, quando pensamos nessa caminhada, nós estávamos, acima de tudo, fazendo um resgate. Um resgate da história desse território. Um resgate dos significados desse território. Um território que, historicamente, já foi um território tupinambá. Um território que a cronologia humana nos mostra a exploração e a invasão européia. E é esse mesmo território que traz a mão de obra forçada de África. Toda essa conjuntura de informações em um território que já foi também um quilombo e que hoje traz todo um significado, não só um significado dentro da religião de matriz africana, um significado diaspórico, mas um significado dos povos originários. E, acima de tudo, um significado da consciência crítica de como cada cidadão, cidadã se relaciona com esse território. E um dos nossos papeis é trazer, não só essas informações, mas fazer com que cada aluno nosso, cada integrante dessa caminhada, possa fazer essa viagem pela sua própria ancestralidade. Todo esse conjunto de informações, esse conjunto de valores, vai nos possibilitar formar cidadãos críticos em uma educação antirracista e, acima de tudo, uma educação decolonial”, explica Cruz.
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A Trilha Ancestral também é um espaço para familiares de estudantes, onde pais e mães podem acompanhar os ensinamentos passados, bem como conviver com dirigentes e docentes do Instituto, como foi pra Joelma Santos de Assis, mãe de Kaila Assis, estudante da Turma Milton Santos. “Eu conheci o Instituto através das redes sociais, inscrevi ela, ela foi, fez a prova, passou, e eu acho que é um Instituto que é muito agregador, muito acolhedor, e minha filha está ganhando muito conhecimento e se tornando uma pessoa melhor. E essa Trilha achei maravilhosa essa troca de conhecimento, tanto a família quanto o Instituto devem caminhar juntos, é uma forma de você apoiar seu filho pra se desafiar mais Aqui pude agregar conhecimentos de Geografia, Biologia, Cultura e História, foi perfeito”, afirmou a mãe.

Assim como família, o projeto também agrega os que já passaram pela Biko, os estudantes egressos. Ele hoje é estudante de Medicina na UFBA, integrou a Turma Juraci e Beth Tavares no Pré Vestibular e agora retornou à Trilha para reviver a experiência. “É sempre um prazer voltar e estar aqui, sobretudo como aluno egresso, ver os novos rostos, rever meus professores, uma sensação mesmo de voltar em casa e de dever cumprido, sabe, que hoje eu consigo olhar para esse lugar e me gerar identificação. É uma felicidade fazer esse percurso de eu, antes como ainda estudante no pré-vestibular e agora como estudante de Medicina na UFBA, olhar para um lugar que vai sempre me pertencer, um lugar onde eu sempre vou ter certeza que eu posso voltar e honrar essa camisa que eu visto hoje”, disse Enzo Souza.

Assim como Enzo, Bruna Salomão, passou dois anos na Biko - Turma Maria Filipa e Juraci e Beth Tavares. “Pra mim é muito importante vir aqui. Quando eu fiz a Biko a primeira vez, não conhecia a Trilha, eu não conhecia o Parque São Bartolomeu, então pra mim foi importante estar aqui. Acho que é um direito à cidade também e esse lugar tão importante a ser explorado. Que eu tenho certeza que tem muita gente também que não conhece, então pra mim foi muito importante, como foi muito importante também fazer parte da Biko. Como estudante de Farmácia na Universidade de Salvador da Bahia, a Biko me transformou de várias formas, eu conheci pessoas incríveis que eu vou levar pra vida toda, os professores que acolheram e foram mais do que educadores. Foram pessoas que realmente me incentivaram, que são incentivadores da gente pra gente chegar a lugares longes. Obrigada, Biko.”, concluiu Bruna.
Ao final da Trilha, como é de costume, mais um aprendizado: coleta de resíduos sólidos no retorno do percurso, que foi até a Barragem do Cobre.

A Trilha Ancestral celebrou 10 anos, e assim a Biko segue rumo aos seus 35 anos em 2027, formando a juventude negra para o Ensino Superior e para a vida. Próxima missão: Aulão ENEMgrecido, dia 1º de novembro, atividade que também será aberta ao público.
Texto: Jamile Menezes (DRTBA 3400)
Fotos: Lucas Malkut
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