Após algumas semanas imersos em atividades culturais em Salvador, Recôncavo, Praia do Forte, Centro Histórico, em equipamentos culturais e religiosos diversos, estudantes da Pitzer College (EUA) se despediram do Programa de Intercambio da Biko nesta sexta-feira (03/7). Em um almoço junto a professores, dirigentes e assessores do Instituto, além dos familiares anfitriões, a turma de oito estudantes puderam compartilhar suas vivências e registrar momentos que, como muitos disseram, levarão no coração.
São 10 anos de Programa junto à Pitzer, universidade privada de Artes Liberais localizada em Claremont, Califórnia, reconhecida por seu foco em justiça social, responsabilidade socioambiental, governança compartilhada e engajamento intercultural. Ao longo deste período, 37 estudantes entre 18 e 20 anos foram beneficiados com a troca cultural proporcionada pelo Programa.
Equipe Biko | Programa de Intercâmbio
“Ao longo desta década, consolidamos um trabalho de conexão entre os alunos de ambas as instituições, promovendo um espaço de aprendizagem mútua sobre o Brasil e os Estados Unidos. Um dos grandes diferenciais do nosso programa é a oportunidade de os estudantes conhecerem a experiência da Biko na formação para a cidadania, na valorização da identidade negra e na construção da consciência racial, através do nosso eixo de Cidadania e Consciência Negra (CCN). Simultaneamente, os participantes compartilham suas próprias trajetórias, ampliando o diálogo entre diferentes realidades”, diz Jucy Silva, diretora de Comunicação do Instituto.
Visita à Casa da Igualdade Racial | Bruna Rocha
Outro diferencial é o acolhimento de Famílias Anfitriãs, mães e pais negros e negras que acolhem em suas casas os estudantes durante todo o programa. A estudante Isaelena destacou os sentimentos da convivência com sua “Mãe Anfitriã”, Thais Fernanda.
“Acredito que ela tornou a minha estadia extremamente confortável; desde o início, senti como se ela fosse uma figura materna e parte da minha própria família. Isso foi fundamental para que eu me sentisse acolhida, sabendo que poderia contar com o seu apoio para qualquer eventualidade. Além disso, foi enriquecedor vivenciar a cultura brasileira no cotidiano, através da gastronomia e de pequenos gestos, o que tornou a minha experiência muito mais autêntica. Quanto ao que mais gostei, é uma escolha difícil, mas Cachoeira foi, provavelmente, o meu destino favorito. Foi muito interessante conhecer uma cidade com uma atmosfera mais tranquila, em contraste com os grandes centros urbanos. Apreciei bastante o valor histórico e artístico da cidade, especialmente a oportunidade de presenciar o trabalho artesanal sendo realizado manualmente. Foi um lugar muito agradável e relaxante”, relata a jovem.
Thais Fernanda e Isaelena
Para Thais Fernanda, sua “Mãe Anfitriã”, não ter filhos e topar a experiência, foi revelador.
“A experiência foi extremamente enriquecedora. Por não ter filhos, o conceito de “mãe afetiva” trouxe, inicialmente, um questionamento sobre como eu desempenharia esse papel. No entanto, o programa revelou-se uma iniciativa fundamental para que jovens de outras regiões compreendessem a importância de Salvador, um território que sintetiza, em grande medida, a própria identidade brasileira. Minha relação com a Isalena, que carinhosamente chamo de minha filha, foi pautada por uma disponibilidade mútua para o diálogo, a troca cultural e a partilha da rotina. Um dos aspectos mais significativos do programa é o protagonismo das famílias negras. Em Salvador, a nossa forma de acolher é singular e carrega as nuances de ser uma mulher negra, historicamente vista como cuidadora. Além da relevância cultural e do suporte financeiro às famílias, o projeto convida a uma reflexão sobre a diversidade das configurações familiares. Sendo uma mulher que vive só, questionei inicialmente como seria minha participação, mas a experiência provou que a estrutura familiar vai muito além dos modelos tradicionais”, disse Thais.
Rasma Rotsart | Visita ao Projeto Tamar (Praia do Forte)
Uma das que mais aproveitou toda experiência, Rasma Rotsart o convívio de perto com a família, com as comunidades foi algo inovador.
“Acredito que vivenciar o cotidiano junto a uma família e à comunidade local foi uma experiência fundamental, pois permite observar aspectos culturais que não estariam acessíveis em uma visita comum ou em um hotel. Aprendi muito sobre a importância da Copa do Mundo, um tema recorrente em conversas familiares e que pautou a rotina com a transmissão de todos os jogos. De forma mais ampla, observar como as festividades são celebradas e o quanto a cultura está intrinsecamente ligada a cada detalhe da vida local foi uma revelação; é algo que só se compreende plenamente ao vivenciar essa realidade”, destacou Rasma.
Visita ao Espaço Cultural Alagados | Turismo Comunitário
Para Jucy Silva, que fundou o Programa há 10 anos, o Intercâmbio tem um aspecto fundamental que merece destaque: a participação das famílias que acolhem os intercambistas com afeto, generosidade e senso de pertencimento. “A hospedagem em lares locais proporciona uma imersão profunda na cultura e no cotidiano brasileiro, tornando a experiência ainda mais significativa. Além disso, os estudantes aprimoram o aprendizado da língua portuguesa por meio da parceria com a Diálogo, o que fortalece sua integração e amplia as possibilidades de interação”, diz.
Oficina de Encadernação
Angela Cristina é veterana. Há 10 anos ela é “Mãe Anfitriã” e revela uma relação muito forte com todos que já passaram por sua casa. “Tenho o contato de todos eles até hoje. Alguns já vieram pra minha casa em outras ocasiões, fora do Programa, resultado de uma amizade construída. Este ano, Cristina acolheu o jovem Isac, filho de Chef de Cozinha, o que para ela foi um desafio. “Ele veio com muita expectativa de aprender o português e conhecer nossa gastronomia. Registrava tudo e compartilhava com o pai. Como eu amo cozinhar, pra mim foi ótimo recebê-lo e poder contribuir mais uma vez com o Programa. Espero que venham mais e mais e que agora eu acolha uma jovem”, pede Cristina com humor, já que nestes 10 anos só acolheu uma menina até então.
Cristina e Isac
“Para a Biko, este projeto é estratégico, pois potencializa conexões com a diáspora africana, promove a internacionalização de nossas ações e reafirma o compromisso com uma educação antirracista. Ao celebrarmos este décimo aniversário, comemoramos não apenas a longevidade da cooperação, mas também todos os vínculos de amizade, solidariedade e aprendizado construídos entre centenas de estudantes, famílias e educadores que compõem esta história. Chegar a este marco é um processo coletivo, um verdadeiro aquilombamento; resultado do trabalho, da energia e da dedicação de todos aqueles que contribuíram para que alcançássemos este momento”, finaliza Jucy Silva.
Certificação em Língua Portuguesa | Parceria com a Diálogo
Confira mais depoimentos:
Isaelena
“Sobre o que mais apreciei na cultura local, diria que são muitos aspectos. De modo geral, as pessoas são extremamente gentis, receptivas e afetuosas. Esse acolhimento faz com que nos sintamos muito bem e à vontade. Tendo visitado outros países onde essa hospitalidade não era presente, consigo valorizar ainda mais o carinho que recebi aqui."
Thais Fernanda
“Esse convívio despertou em mim um instinto protetor genuíno; a preocupação que eu sentia ao vê-la sair à noite e a dificuldade em dormir até seu retorno confirmaram o quão real e profundo é esse vínculo maternal. Um dos aspectos mais significativos do programa é o protagonismo das famílias negras. Em Salvador, a nossa forma de acolher é singular e carrega as nuances de ser uma mulher negra, historicamente vista como cuidadora. Além da relevância cultural e do suporte financeiro às famílias, o projeto convida a uma reflexão sobre a diversidade das configurações familiares. Sendo uma mulher que vive só, questionei inicialmente como seria minha participação, mas a experiência provou que a estrutura familiar vai muito além dos modelos tradicionais. Ao compartilhar essa vivência com uma amiga, Idália, que também acolheu uma jovem, percebemos que o nosso formato de família — composto por mulheres independentes — proporcionou às jovens um ambiente de maior privacidade e segurança. Isso desmistifica a ideia de que a acolhida exige um padrão específico; é possível partilhar a vida, o afeto e a casa sendo quem somos. A troca diária, os momentos de desabafo sobre conflitos e o carinho demonstrado por ela, presenteado em gestos constantes de atenção, foram valiosos. Encerro este ciclo com a certeza de que criei um laço para a vida toda. Isalena é, e continuará sendo, minha filha, e minha casa, assim como meu coração, estarão sempre abertos para ela.”
Rasma Rotsart
“A rotina diária — desde idas ao mercado até acompanhar a dinâmica escolar dos jovens — superou minhas expectativas. São os pequenos detalhes, como a estrutura das escolas ou a organização da jornada dos alunos, que oferecem uma nova perspectiva e despertam uma profunda gratidão pelo acolhimento recebido. A gentileza das pessoas é um dos pontos mais marcantes: tanto em interações na rua quanto no comércio, todos se mostram extremamente receptivos e pacientes, especialmente ao notarem meu esforço em aprender e falar português. Esta foi uma viagem memorável, da qual levarei um entendimento mais profundo sobre as práticas culturais e religiosas. Um dos aspectos que mais aprecio é a integração natural entre religião e cultura; não há um esforço para separá-las, o que fortalece ainda mais os laços comunitários. Esse respeito mútuo e a forma como esses elementos se entrelaçam são, sem dúvida, o que consolida a identidade e a coesão da comunidade local.”
Texto: Jamile Menezes | Jornalista DRTBA 3400