A True Culture University (TCU) — plataforma global dedicada à formação, mobilização e produção intelectual de jovens negros — lançou oficialmente os Clubes Universitários Pan-Africanos no Brasil. O local escolhido para o lançamento: Salvador. O evento reuniu acadêmicos, lideranças estudantis e representantes de instituições parceiras no último dia 5 de dezembro de 2025, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), no Terreiro de Jesus, em Salvador. O encontro promoveu reflexões sobre acesso, permanência, pertencimento e o protagonismo da juventude negra nas universidades públicas.
Apresentando o ecossistema global da True Culture University, o diretor executivo da organização Miles Henderson destacou sua atuação nas áreas de artes, tecnologia, educação, negócios e mídia, inspirada no legado de Marcus Garvey, líder pan-africanista que fundou a Universal Negro Improvement Association (UNIA).
Henderson explicou que a TCU integra capítulos internacionais já ativos na Etiópia, Gana e Quênia; o Portal App, que funciona como rede social e plataforma de artigos acadêmicos; a editora Black Paper Press; a Black Students Newsroom; e futuros centros de inovação. A missão, segundo ele, é ampliar a presença dos capítulos na África e na Diáspora Africaba, articulando parcerias com instituições que representam aproximadamente 100 universidades.
A Dra. Andréia Lisboa, Relações Internacionais no Instituto Cultural Steve Biko (ICSB), um dos parceiros da TCU no Brasil, emocionou o público ao afirmar que “os nossos ancestrais estão trabalhando por nós”, reforçando que a presença de jovens negros nas universidades resulta de uma arquitetura espiritual e política construída por gerações. Citando figuras como Beatriz Nascimento e Maria Felipa, lembrou que “a invisibilidade nos livros não significa inatividade”, defendendo a centralidade de trajetórias negras na narrativa afrodiaspórica contemporânea.
“Estou maravilhado com o lançamento dos Clubes Universitários Pan-africanos, é um momento especial na história, porque antes os negros não podiam entrar nas universidades. Hoje, estamos adensando os conhecimentos como acadêmicos, mas, também, povo lutando por um mundo melhor, um mundo sem racismo”, disse o professor Dr. Pedro Leyva, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), que resgatou a importância da mulher na tradição africana, especialmente no Pan-africanismo.
Em diálogo com a reflexão de Pedro Leyva, Dra. Andréia também destacou a relevância da soberania feminina, além de pontuar como Pan-africanismo na atualidade tem dialogado com cultura, política, educação e espiritualidade, reconhecendo o papel essencial das mulheres negras como guardiãs e articuladoras da continuidade.
O professor Sílvio Humberto reforçou essa perspectiva ao afirmar que “estudar, para quem é preto e pobre da periferia, é um ato político”, sublinhando o papel da dedicação estudantil como gesto de conexão com a ancestralidade.
Adesão aos Clubes Pan-Africanos
A formalização dos Clubes Universitários Pan-Africanos contou com a assinatura dos Termos de Compromisso por representantes acadêmicos e institucionais. Firmaram o compromisso o professor Antônio Alberto da Silva Lopes (UFBA), o professor Pedro Leyva (UNILAB), o diretor executivo do Instituto Cultural Steve Biko (ICSB), Lázaro Cunha, e Miles Henderson, diretor executivo da True Culture University (TCU). Também assinaram representantes das lideranças estudantis da Liga Acadêmica de Estudos da Saúde da População Negra (LANEGRA) e do Latitudes Africanas: Núcleo Ancestral de Arte, Cultura e Tecnologia (UNILAB), consolidando a participação ativa das universidades e da comunidade estudantil na implementação dos clubes.
Estudantes reafirmam pertencimento e vivências de permanência acadêmica
As vozes dos estudantes presentes da UFBA, UNILAB, UNEB e da União dos Estudantes da Bahia (UEB) ressaltaram o caráter transformador do lançamento. Para a juventude, a iniciativa renova o sentido de pertencimento, simboliza um reencontro com a ancestralidade e fortalece o compromisso com a permanência acadêmica.
Entre os estudantes, ficou evidente o sentimento de entusiasmo diante da possibilidade de participar ativamente das atividades do clube, aprofundar estudos sobre pensadoras negras e pensadores negros, além de fortalecer a circulação de conhecimento em suas comunidades, onde o acesso à universidade ainda é limitado. Também emergiu a compreensão de que a iniciativa tem uma dimensão territorial, a partir de articulações que dialoguem formação, pertencimento e caminhos de fortalecimento coletivo.
A presidenta da UEB, Átina Batista, reforçou o compromisso da entidade com o enfrentamento ao racismo universitário e à luta pela permanência. Relatou sua trajetória como mulher negra, trabalhadora e estudante, destacando os desafios de conciliar diferentes responsabilidades.
“Venho de uma comunidade de Salvador onde muitos jovens não chegam à universidade. Minha responsabilidade enquanto mulher negra e presidenta da UEB, é abrir caminhos, inspirar e ajudar quem está dentro e quem ainda está fora. A educação transforma territórios; e nós estamos aqui para construir permanência e futuro”, ressaltou Átina.
O evento foi encerrado com apresentações culturais do multieducador Mobily, do artista É do Rap e da cantora Cris Leal.
TCU no Brasil
No Brasil, a TCU desenvolve ações em parceria com o Instituto Cultural Steve Biko, a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), o Latitudes Africanas, a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e a Liga Acadêmica de Estudos da Saúde da População Negra (Lanegra), ampliando conexões entre universidades e diáspora africana, estimulando cooperação global e promovendo a circulação de conhecimento em escala internacional.
O lançamento dos Clubes Universitários Pan-Africanos contou ainda com o apoio de organizações como a C.A.S.T.N.E.T. International Chamber of Commerce e a Chanay Publishing.
Créditos fotos matéria: @_phmota
Foto de capa: Donminique Santos