"Aprendendo a ler pra ensinar os camaradas.." - Ensinar na Biko é...



O Instituto Cultural Steve Biko comemorou mais um ciclo de vitórias ao longo dos seus 26 anos, celebrados em 31 de julho deste ano. Muitos educadores e educadoras já passaram pela instituição, contribuindo com a formação da juventude negra, preparando-a para o ensino superior. Mas o preparo não é apenas com foco nas disciplinas tradicionais – é para a vida.


Atuando através da educação na militância negra em Salvador, na Biko o ensino é ancestral. “Os conteúdos ministrados são associados a uma filosofia de cidadania plena, que respeite os valores ancestrais civilizatórios e que dialoguem com as questões contemporâneas e com os diversos movimentos. É preciso compreender os efeitos do racismo para construir uma educação que respeite as individualidades e resgate a autoestima de estudantes negros e negras”, afirma a diretora executiva, Jucy Silva.


Para o professor de redação, Ivo Ferreira (foto), a Biko é mais que um cursinho preparatório, é um instrumento da sociedade civil no desenvolvimento sociocultural e político da juventude negra. “Aqui os jovens aprendem a se defender contra um imaginário nacional que sempre relegaram as suas imagens e as culturas de seus antepassados a estereótipos de negativações e invisibilidades, inicialmente na tentativa de animalização colonial e hoje, ainda, em discriminações cotidianas”, diz Ivo.


A Biko traz para o currículo em sala de aula o propósito do ativista anti-apartheid da África do Sul Steve Biko, que nomeia o instituto. Sua luta encontra ressonância na realidade de professores, alunos e de toda a equipe docente que, assim como ele, busca capacitar e mobilizar os jovens por meio da transformação social.


Uma transformação contínua...


A relevância da instituição vai além de proporcionar oportunidades de ensino, mas também de carreira, como é o caso de Jeferson Santos (foto acima - Nila Carneiro), que é ex-aluno e agora leciona a disciplina de Geografia aos novos estudantes. “Como ex-aluno, a Steve Biko teve e tem um significado muito importante para mim, pois me ensinou a enxergar algo que estava implícito na sociedade brasileira, que é o preconceito e o racismo. A concepção de valores do negro em escala local, regional e global aumentou e muito minha autoestima e me fez um geógrafo consciente deste espaço geográfico, com o negro inserido nestas escalas.”, declara Jeferson.



Já o professor de História, Tácio Matos (foto ao lado, que ensina História na Biko desde 2013, traz memórias desta época. “Comecei naquele ano trazendo o conteúdo histórico técnico para provas, mas também como suporte para um ativismo negro combativo. No percurso, fui aprendendo que a prática de solidariedade e coletividade eram os princípios da Instituição. Cuidar uns dos outros e de si mesmo em todos os aspectos é uma forma de resistência prioritária na Biko. Numa Universidade ou em qualquer lugar, nossos alunos defendem qualquer causa justa do povo negro, porém, na mesma medida, mantêm o cuidado cotidiano com os seus”, afirma.

E qual o papel da Cidadania e Consciência Negra (CCN) neste ensino?

Essa escola não ensina apenas disciplinas como Português, Redação, Matemática, Literatura ou Geografia. “A Biko tem na sua missão a ascensão da comunidade negra através da Educação. Isso significa que, para nós, a disciplina CCN é o que nos diferencia, pois ela acontece de forma interdisciplinar nas disciplinas exigidas nos projetos e transcende para as ruas através da militância em prol da igualdade racial”, explica Jucy Silva.


A troca estabelecida durante o ensino gera frutos não só para os estudantes, mas também para os professores.“Dar aulas no Instituto Steve Biko é uma oportunidade de construir-se enquanto educador e ser humano, no sentido exato de entender quem você é, o seu lugar de fala e a sua função cidadã em um país que não permite cidadania plena à população afrodescendente. O compromisso é, antes de qualquer âmbito, poder interagir e ajudar a construir visões de mundo que possibilitarão as pessoas oportunidades em suas vidas profissionais ou pessoais”, diz Ivo Ferreira.



Para a professora de Língua Portuguesa, Sandra de Souza (foto ao lado), a Biko também é acolhimento e segurança no exercício do trabalho em tempos tão temerosos. “Isso porque há um projeto pedagógico afrocentrado, muito bem alinhado e pensado para ‘salvar vidas’. É um projeto que deveria estar nas escolas públicas. Ele nos oferece dignidade como educadores para podermos pensar coletivamente valores e conhecimentos para levar aos nossos estudantes. Então, a Biko salva também a vida da gente. Salva a minha vida como professora”, relata Sandra.


E, citando Bell Hooks, Sandra finaliza: “Quando conhecemos o amor, quando amamos, é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor cura”. Esse amor, encontramos na Biko, o que nos faz educadoras amorosas, cuidadosas; e só podemos desenvolver nosso trabalho devolvendo esse amor aos nossos alunos e pensando em levar esse amor para outros lugares onde trabalhamos”.

Jornalista Ana Paula Nobre (SRTE/BA 3638)


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